Os media (2)

Ontem descobri um mundo que desconhecia. E vistas bem as coisas, é um mundo que passava bem sem conhecer.

Ao ver o Público Online deparei com um link directo para um artigo sobre um blog. Fui parar à secção life & style.
Era então um artigo sobre uma blogger que vive (ganha dinheiro) com o seu blog que é nem mais nem menos que um dos mais visitados do país.
Jornalista, jovem e com um blog de sucesso. Uma receita estranha para um sucesso tão grande.

E comecei a ler uns posts.
A minha mandíbula foi descaindo até já não poder mais.
Só pensava como era possível um blog assim ter 20 mil visitas por dia! Em desespero de causa comecei a procurar qualquer coisa mais substancial. Dei com uma tag que dizia "artigo de opinião". Bem, pensei, as pessoas fúteis tambem podem dizer qualquer coisa de jeito.
A opinião era sobre um produto de maquilhagem para as pestanas. Desisti. Saí.

Fiquei atónito.
Quando pensamos porque é que somos como somos, seja o país seja o mundo, seria bom que pensássemos porque é que é tão fácil sentir apelo pelo fútil e pelo efémero.
O consumo, o dinheiro. Comprar "coisas". Muitas coisas.
No caso desta rapariga é roupa e sapatos.

E faz-se um blog sobre isto, e ganha-se dinheiro. Nada de produtivo, nada de relevante. Apenas superficialidade.
Quando se pensa que existe gente que trabalha desalmadamente, em trabalhos duros e penosos que mal consegue ganhar a vida para sobreviver, é incrível pensar que alguém possa ganhar a vida a escrever sobre sapatos que custam quase um salário mínimo, roupa da marca A ou B e se tire a si próprio fotografias para que o mundo veja como lhe fica bem a roupinha que "comprou". Que encha um blog de fotos suas para sabermos como saiu à rua nesse dia.
Claro que o jornal promove isto. Tem pinta e estilo e até é uma colega de "classe".

É "tão giro" ler as atribulações de alguém que não consegue resistir a comprar MAIS um par de sapatos.

É quase ofensivo ler num mesmo jornal artigos sobre famílias que vivem numa crise extrema, e a promoção de um blog de alguém que é sem dúvida nenhuma um produto dos tempos de consumo desenfreado e sem sentido.
O contraste total.

Será feliz? Certamente que sim. Enquanto não tiver consciência da completa inutilidade do que faz e tiver comentários de gente igualmente vazia a louvar o "espaço" será feliz certamente.
Num dia um que tenha uma epifania em que o seu casamento de sonho passe a pertencer ao lado mau da estatística, em que o maridinho não ofereça sapatos, perceberá provavelmente que uma vida deitada fora a fazer isto é um desperdício total.

Preferia que a autora escrevesse sobre coisas mais sérias? Assim à primeira sim... Mas depois de ver os posts e de perceber um pouco o que vai naquela cabeça, definitivamente NÃO!
Devem estar a aparecer uns sapatos novos da colecção Outono/Inverno e não queremos que a jovem se disperse e perca as coisas "fantásticas" que vêm aí falhando na sua tarefa "informativa" na blogosfera.

Provocadores

Fiquei fascinado com o comportamento da centrais sindicais em resposta ao discurso de Passos Coelho.

É sabido que por essa Europa fora os cidadãos não são sempre pacíficos e ponderados.
Os motins em Paris de há uns anos atrás em resposta à morte de um jovem pela polícia, os tumultos bastante violentos na Grécia em resposta ao torniquete da austeridade e, mais recentemente, os tumultos em Londres que causaram fortes prejuízos materiais além da perda de diversas vidas.

Talvez por estes casos recentes, com maior incidência no caso da Grécia, Passos Coelho falou que a contestação social é algo que tem de se respeitar, sem a confundir com a escalada para o vandalismo e o tumulto puro e simples.

Não é difícil perceber que no estado em que as coisas estão esse pequeno passo é algo de possível. Não tanto em Portugal, habitado por uma resma de carneiros de notável temperamento mas mesmo assim uma possibilidade.

Ouvi e não me pareceu nada de estranho.

Estranho foi o que veio a seguir. O PCP e a "sua" central sindical começaram a acusar Passos Coelho de estar a provocar "os trabalhadores"... Quando ouvi esse pedacinho no discurso de Jerónimo nem percebi bem do que ele estava a falar. Só percebi quando Carvalho da Silva disse a mesma coisa com uma breve referência ao contexto.

Até Martelo vem a terreiro dizer que isso é uma manifestação de fraqueza. Como o homem tira estas conclusões é algo que me ultrapassa. Como as tenta fazer passar como sendo a verdade absoluta já não me ultrapassa mas pelo menos deixa-me a pensar se ele não deveria moderar o seu incomensurável ego. Era bom que Marcelo não se esquecesse que quando foi Secretário Geral do PSD foi um péssimo Secretário Geral. Uma descida à realidade seria muito bem vinda quando se põe a criticar à direita e à esquerda. Que eu saiba o manual definitivo de como se comportar em política não foi escrito por ele e provavelmente nem existe.

Provocador. Muito bem. Se um polícia nos disser - "pode estacionar ali em baixo mas atenção que aqui não!" está a provocar-me. Claramente.

Este tipo de reacção é mais própria de bullies prontos para a cacetada à procura dum pretexto para arranjar problemas do que de gente que é dirigente político e sindical. Isto sim é empolar o problema no sentido de obter uma reacção da população. Mas o problema é que a população ouve isto e até estranha que se chame a isto uma provocação. Os comissários políticos ainda não têm o talento que tinham na ex URSS.

Francamente!! Nunca nenhuma destas alminhas reagiu assim às palavras de Sócrates. Nem de perto nem de longe. Viram-no delapidar o país e ficavam-se pela "política de direita" e pouco mais.

Mesmo agora e sabendo que estamos a pagar o belo legado desse indivíduo fingem que não sabem para capitalizar potenciais ganhos eleitorais com este tipo de discursos e afirmações.
Temos a CGTP, a UGT e o PCP ao nível de Chavez.
Em suma uma perfeita imbecilidade...

Os media (1)

Desde há muito tempo que me parece que a informação que nos servem, sobretudo pela televisão, é fortemente condicionada pela visão pessoal do jornalista que "serve" essa informação.

Apesar de não ter uma memória de elefante, lembro-me claramente que a forma como a informação televisiva tratava Sócrates era bem diferente da forma como trata Passos Coelho.
Se um andou em Estado de Graça até ao rebentamento final, com comentadores a louvar as suas características de determinação e habilidade política, com Passos Coelho já eram servidas tareias diárias durante o 1º mês à frente do Governo.

Mas há coisas que ultrapassam os limites da informação e extravasam para a má vontade e para o mau perder.

A cronologia de todo este processo é bastante curiosa.
Mal o Governo tomou posse começou o blitz.

Quando é que eram apresentados os planos de corte da despesa, quanto é que o Governo iria cortar etc etc.
Uma das primeiras medidas foi a da abolição da necessidade de usar fato e gravata no Ministério  da Agricultura.
A Ministra foi chamada de tudo. Mas o mais curioso é que mesmo sendo um gesto simbólico e que devia ser tomado como tal, comentadores e jornalistas fizeram sempre questão de dizer que o que se iria poupar em custos de energia com um grau de temperatura a mais no ar condicionado era ridículo.

Seguidamente o caso dos Governadores Civis. Uma estrutura anacrónica, obsoleta e cara demais para o serviço que fornece.
Rapidamente saltaram os media a terreiro, apontando o facto de os Governos Civis se sustentarem sozinhos e não serem deficitários.
Como? Então os Governos Civis não recebem uma fatia grossa do seu orçamento do Estado central? Sim. Ficam com uma percentagem das coimas que de outra forma reverteriam integralmente para o Estado? Sim. Cobram por serviços (passaportes) que ao ser emitidos por outra entidade reverteriam também para o Estado? Sim
Façamos então uma continha rápida.
Créditos
x - dotação orçamental da Administração central
y - receitas de passaportes e outros serviços
z - percentagem das coimas

Débitos
a - Salários e ajudas de custo do Governador Civil
b - Salários e outros débitos de pessoal adstrito ao Governador Civil
c - Custos com instalações dos Governos Civis
d - Salários e custos de pessoal de restantes funcionários

Situação presente
Saldo 1 = (x+y+z) - (a+b+c+d)
Situação futura
Saldo 2 = (x+y+z) - (c+d)

Eu diria que na minha fraca matemática o Saldo 2 é maior que o saldo 1. A medida ainda que simbólica significa algum ganho para o Estado. Pode não ser muito mas o saldo é não nulo. Os media preferiram ignorar isto e preferiram dar voz a alguns que viram a sua carreira como altos funcionários do Estado ser interrompida.
Que eu saiba ainda ninguém deixou de ter passaporte. O herdeiro natural dessa função é o SEF. Estranho era que não o fosse já.

A seguir a este processo veio o caso da derrapagem orçamental e do "desvio colossal". Pelo que se veio a saber com a gravação do que foi dito no Conselho Nacional, Passos Coelho disse que havia um desvio e seria necessário um "esforço colossal".
O Ministro das Finanças explicou isto mesmo. Disse ele que entre as palavras "desvio" e "colossal" houve mais palavras pelo meio. Foi quase caricaturado por causa das suas afirmações. Dias depois a gravação confirmava que quer Passos Coelho quer Vitor Gaspar tinham dito a verdade. Ninguém ligou. Os media com o seu "amor" à verdade ainda atribuem a expressão "desvio colossal" a Passos Coelho.

Mais recentemente o caso das Secretas e do jornalista.
Esse caso passou-se em 2010 sob a tutela de Sócrates. Pelos vistos o jornalista estaria bem informado do que se passava e alguém tentou perceber quem era a fonte nos Serviços Secretos que passava informação ao jornalista.
Seja por iniciativa do chefe dos serviços com conhecimento superior ou não, a responsabilidade é de quem o tutelava à data. Este Governo NADA tem que ver com o assunto.
Só numa ocasião é que ouvi nas notícias alguém fazer esta ligação com o anterior executivo. Em vez de esclarecer esse facto, e o mais recente caso da investigação de pessoas a pedido de "gestores" de empresas privadas, preferem deixar na penumbra da informação o facto de isto ter acontecido debaixo do nariz de Sócrates que tutelava directamente as "secretas"

Chegam finalmente os cortes.
Aqui del rei que isto não são cortes nenhuns. Mesmo perante os números de redução de despesa do Estado expresso em % do PIB continua a insistir-se que não é corte nenhum.
Agora já passamos a outra fase. É um bocado impossível de dizer que não há cortes. é um bocado impossível não perceber que o Governo de Sócrates cortou precisamente nas mesmas coisas (lembram-se das Escolas a fechar e dos serviços hospitalares?) e diz-se agora que o Governo é optimista.
Pois então. Este Governo é optimista.
Estes argutos especialistas que deixaram passar em claro na altura em que foram proferidas expressões como "Portugal é um Oásis" a economia "portuguesa saiu primeiro que as outras da crise" ou expressões do mesmo tipo proferidas por uma extenso alinhamento de alienados do PS e do governo de Sócrates.

A outra diferença notável é a forma como os jornalistas se atrevem a dizer coisas que vão muito para lá daquilo que é o dever de informar.
Destaco duas situações em que uma chapada bem assente no focinho de tão notáveis profissionais não seria certamente desperdiçada.
Na TSF no fim de uma conferência de imprensa de Vitor Gaspar, num directo, o jornalista diz a seguinte frase - "Vitor Gaspar persiste em responder aos jornalistas."
Numa conferência de imprensa, o orador "persiste" em responder às perguntas que lhe fazem. Que coisa chocante e incómoda.
Ontem um "jornalista" numa peça sobre as declarações de Passos Coelho acerca da possibilidade de uma crise externa provocar novas medidas de emergência com recurso a impostos, termina com o seguinte apontamento.
"No caso de as coisas correrem mal, Passos Coelho já tem a justificação ensaiada"

Quem é que mandatou estes anormais para nos darem as suas opiniões? Quem é que mandatou estes anormais para, apesar de se referirem a um governo maioritariamente eleito pelos cidadãos, acharem que têm legitimidade para nos dizer que afinal eles (os jornalistas) é que estão certos?
Porque é que esta gente, tão orgulhosa da sua isenção se portou cobardemente, ou como cúmplice, dum Governo miserável e agora se comporta como um puto com birrinha por lhe terem tirado o doce?

Curiosamente isto acontece na estação de televisão de Balsemão. O tal que é todo liberal e de direita. Acontece com meia dúzia de idiotas que se passam por jornalistas que acham que é mais importante ser espirituoso e engraçadinho do que ser competente e saber fazer as perguntas certas.
São pessoas que estão no jornalismo para que saibamos o que elas pensam em vez de serem o veículo dos factos e das notícias.
Com gente deste calibre nos media, como podemos nós confiar no que nos dizem?

Estamos tão habituados que já nem levamos a sério

É a única coisa que se pode deduzir de tudo isto.
Passos Coelho afirmou ainda em campanha que iríamos ter de fazer sacrifícios ainda maiores antes de se poder ver uma luz ao fundo do túnel. As coisas iriam piorar antes de melhorar.
Não era fácil endireitar as contas públicas com o estado miserável em que elas se encontravam.

Assumiu o compromisso de cortar na despesa do Estado.

Quando chegou ao Governo deparou-se com as contas de 2011 a derrapar. O Governo que tinha acabado de se comprometer com o plano imposto pelos nossos credores tinha deixado as contas numa situação que tornava impossível cumprir o objectivo que tinha acabado de assinar - 5.9%

Lá veio um plano de emergência sob a forma dum imposto extraordinário a incidir sobre o 13º mês.

Começou logo toda a gente a berrar como se num mês o governo pudesse fazer alguma coisa para salvar o doente. A única solução foi a amputação. O anterior estilhaçou o membro e pedia-se agora a este que o conseguisse salvar. Aparentemente impossível.

Começou depois um longo mês de palermas a bradar pela despesa. Os do costume e ainda outros insuspeitos que como devem ter poderes sobrenaturais devem pensar que num mês se consegue fazer um plano minimamente coerente de corte numa despesa que descarrilou há dezenas de anos e subiu a níveis nunca vistos nos últimos 6.

Vêm as medidas. Cortes no estado. E na fatia onde o Estado gasta mais - Saúde e Educação.
De novo brado porque estes cortes também não estão bem. Como se porventura acabar com os organismos redundantes e com uma certa camada de gordura estatal fosse uma solução completa. Com o nível que é preciso cortar não há mais remédio do que cortar nas parcelas significativas. O próprio PS clama agora contra o facto de o Governo querer ir mais longe que o compromisso.
O PS sempre gostou de andar no limite. A noção de prevenir, de em vez de 3% ter 0%, podendo ter crescimento mais rápido é algo que não concebe.
Aliás, não concebe sequer cumprir o prometido, já que se comprometeu com a redução da TSU e depois o seu nefasto líder num debate disse que se tinha comprometido a fazer "estudos".

Maior falta de boa fé negocial e maior descaramento mentiroso é muito difícil de encontrar, mas o PS é sempre uma aposta segura.

E nem sequer se coibiu de entrar na onda psicótica anti riqueza do PCP e do BE. Logo eles que foram responsáveis pelo maior desnível entre os mais ricos e os mais pobres de que há memória neste país. Ajudaram "empresários" a criar  fortunas do nada. Em vez de lhes pedirem para contribuir, puseram-lhes o dinheiro na mão. Agora são uns moralistas que até já querem sacar umas massas às empresas que fazem mais lucros. Curioso que nas PPP garantiam a essas empresas margens de 12%-14%, mais ou menos o quádruplo das melhores taxas de juro. Menos arriscado que investir em fundos de capital garantido.
Foi esse partido que foi contra a taxação dos dividendos antecipados. Não esteve sozinho mas votou contra.

Enquanto tudo isto acontece parece que a realidade anda afastada dos portugueses. Todos choram uma lagriminha porque sem dinheiro não podem ter isto ou não podem ter aquilo. Parecem miúdos a quem negaram um brinquedo porque os pais não o podem pagar.

Abram os olhos de uma vez por todas e percebam que o Estado mal teve dinheiro para pagar os salários de Junho!!!!
Percebam de uma vez por todas que quando as medidas dizem congelamento salarial, é quase do domínio do delírio pedir 4% de aumento para a função pública. Porra!

Quando é que esta gente percebe que a subsidio dependência e a mama já não podem continuar? Quando é que a construção civil que se lamenta que tem desemprego percebe que construiram coisas demais? Que há meio milhão de casas para vender (novas) e os bancos não emprestam dinheiro para as comprar porque não o TÊM!!

Caiam na realidade de uma vez por todas. Trabalhem, sejam competentes e diligentes, simpáticos e eficazes e por amor de Deus percebem que vivemos daquilo que não tínhamos e agora vamos ter de pagar TUDO. Com juros.

Pelos vistos pensavam que bastava por o Sócrates na rua para ficar tudo porreiro. Não era assim. O legado dessa besta perdurará muito depois de ele ter perdido as eleições. Mas ao contrário de outros o legado dele é o sofrimento de 10 milhões.
Só tenho pena que não se possa impor o sacrifício exclusivamente aos mentecaptos que votaram nele. Não uma, mas duas ou três vezes.
Isso sim era justiça.

Erros intencionais? Ou é apenas burrice?

Não há uma única circunstância em que se fale de uma listagem de chamadas telefónicas revelada, que não descambe imediatamente nos media para um caso de "escutas".

E excepção parece ser o caso do famoso envelope 9. Nesse caso a PT teria fornecido em Excel a listagem de chamadas feitas por telefones da conta do Estado, com um filtro activo mas com todos os telefones dessa conta incluídos.
Assim, estava entre outros o telefone do presidente da República e os telefones de outras altas figuras do Estado.

Mas essa listagem dizia apenas o número de origem e o de destino, a duração a hora e data da chamada. O mesmo para os SMS.

Nunca em nenhum destes casos se teve acesso ao conteúdo dos SMS ou da conversa gravada, pelo que, chamar a isto um caso de escutas é no mínimo aberrante.
O mesmo aconteceu com Cavaco Silva quando se referia ao facto de um assessor seu ter sido visto a almoçar com uma figura do PSD e quando houve suspeita de intrusão no sistema informático da presidência. Mas esse caso passou a ser conhecido como o caso das "escutas".

No caso mais recente acontece o mesmo. Fala-se de escutas.
Não sei se isto é pura ignorância ou se é apenas um resquício dos tempos em que um tipo empoleirado num poste ligava os seus auscultadores num fio de telefone e escutava alegremente as conversas a decorrer.

Hoje as coisas já não são bem assim. Numa rede móvel as comunicações entre o telefone e a antena são encriptadas. Interceptar uma conversa nessas circunstância é verdadeiramente complicado e dispendioso.
Só pelo facto de ser um telefone móvel mesmo que se conseguisse decifrar o conteúdo da emissão era preciso estar ao pé ou do emissor ou do receptor.
Até na rede fixa que é hoje digital se passa o mesmo. Muitos dos operadores já usam VoIP o que quer dizer que não só é digital como a comunicação entre o telefone do cliente e a rede é encriptada e é uma comunicação de voz sobre IP. Fazendo um paralelo relativamente simplificado é como se fosse uma conversa no Skype.
Até os telefones sem fios que temos em casa deixaram de ser um mero emissor receptor em FM para passarem a ter encriptação DECT.
As intercepções têm de ser feitas centralmente. Numa plataforma especial que permite gravar as conversas entre os intervenientes.
Estas plataformas existentes nas operadoras são de acesso muito restrito e só mexidas por ordem judicial. A possibilidade de alguém (nos dias que correm) poder entrar nessa plataforma e criar um intercepção são verdadeiramente remotas. Por ter acontecido há uns anos, fechou-se a segurança dessas plataformas de maneira quase obsessiva.

A listagem de chamadas já não é assim. Está acessível nessas empresas a muita gente de forma perfeitamente normal. Uma pessoa do suporte tem acesso às últimas chamadas do cliente. Precisa de ter para o caso de o cliente apresentar uma reclamação. As próprias facturas detalhadas têm essa informação e ficam guardadas não só no email do cliente (quando enviadas em formato Acrobat) como podem ser reenviadas a seu pedido por se ter perdido a 1ª via.

Uma lista de chamadas é já de si bastante elucidativa. De tal forma que mesmo na facturação se pode pedir para mascarar número completo ou apenas um conjunto de dígitos (tipicamente 7). Isto para o caso de alguém que receba a factura em casa e não quer que o cônjuge ande a tentar perceber se há "amantes" envolvidos(as).

Da mesma forma que eu sei isto só de conversar com pessoas que trabalham no ramo, é obrigação de um jornalista sabê-lo. Uma vez que está a informar exige-se que junto das fontes habilitadas retire qualquer dúvida e informe de facto.
Mas não o fazem. Muitos porque são muito cheios de si e acham que sabem tudo. Outros porque percebem que o efeito de falar em escutas é muito maior do que se disserem "listagem de chamadas". Se a coisa ficar mais ou menos indefinida já se sabe que quem vê ou ouve irá acrescentar mais um pontinho para apimentar a coisa. 3 pessoas depois temos um caso de "escutas".
Já vi até o Prof. Marcelo dizer isto, sem sequer se preocupar em distinguir uma coisa da outra.

Não é que não seja grave obter ilegalmente uma listagem de chamadas. Mas comparar isto a escutas numa notícia é o mesmo que dar uma notícia de um acidente e dizer que houve 5 feridos com alguma gravidade ou dizer que houve 5 mortos.
Se a informação não é rigorosa e "informativa" não vale NADA. E de facto a nossa informação caracteriza-se por ser mais um chorrilho de opiniões jornalísticas do que uma informação com factos.
Mesmo quando os jornalistas não o fazem limitam-se a trazer "comentadores". São assim mais ou menos como as coscuvilheiras da aldeia. Nada sabem ao certo mas são especialistas em rumores e em "ouvir dizer". São também especialistas nas suas opiniões. O que é o mesmo que dizer que qualquer um com um minimo de cultura e discernimento poderia estar no lugar deles.
Uma opinião é uma opinião e como sabemos todos têm uma. Porque pagam a um qualquer asno com uma "agenda" pessoal par ir dizer as suas opiniões para a televisão é algo que me ultrapassa por completo. A utilidade disto é nula. Daqui retiro aquelas figuras de saber e estatura como um Adriano Moreira ou um Miguel Beleza ou os outros especialistas em Economia, Direito, Medicina etc. Mas o resto? O resto são "jornalistas" com opiniões. Vivem das opiniões. E ainda dizem que é difícil ganhar a vida neste país...

Aborrece-me especialmente na nossa informação que quando se entra em questões mais técnicas, se simplifique a mensagem porque se assume (ou se faz conscientemente) que o receptor da mensagem é burro e não merece mais qualidade. Ou pior ainda, se quer "orientar" o receptor da mensagem num determinado sentido, manipulando, omitindo, ou pura e simplesmente inventando informação para obter um resultado concreto.

Nunca estivemos tão mal informados com tanta informação à nossa volta. Perdeu-se quase completamente a seriedade e a objectividade nos media. Salvo raras e honrosas excepções ninguém parece estar interessado em ir ao fundo das coisas. É mais fácil ficar pela lambreta do Ministro ou pela mania que o Min das Finanças tem de falar pausadamente. Ou falar do caso de Sócrates a perguntar de que lado fica melhor do que analisar com algum cuidado o que foram as medidas implementadas ou anunciadas por ele que nunca deram qualquer resultado que fosse ou sequer que foram concretizadas.

Sócrates passa até ao lado desta questão da listagem de chamadas do jornalista. Foi durante o seu Governo feito por entidades tuteladas por si DIRECTAMENTE. Ainda não vi ninguém falar nisto nos media. Só os vejo tratar o caso como se fosse este Governo que tem alguma responsabilidade no assunto. Como todos os outros casos que têm vindo a lume o governo de Passos Coelho não tem feito mais que agachar-se com o saquinho de plástico na mão para apanhar a caca que os outros deixaram e não apanharam.

Aos media pede-se profissionalismo. Ética e algum trabalho de casa. Se tivéssemos que olhar e avaliar o desempenho da classe jornalística deste país nem 1% de Muito Bom se daria. Para se ser uma jornalista basta uma carinha laroca e umas perninhas jeitosas. No caso de ser homem é só necessário ser um palerma que começa por fazer exteriores e perguntas estúpidas. Qualidade do trabalho? O que é isso?

Isto parece ser extensível a todos os meios de comunicação. Foi no rádio que ouvi um jornalista dizer "o ministro das Finanças persiste em responder às perguntas". Persiste. Como se já estivessem fartos de o ouvir e queriam que ele se calasse.
Ou a mais recente campanha, aproveitando a tão proverbial dor de cotovelo nacional, para carregar os ricos com impostos.

Esquecendo-se de dizer qual é o escalão em que já estão os que ganham mais de 150 mil Euros. Em França é preciso 500 mil para pagar 44%. Cá é preciso 150 mil para pagar 49%.
Só ouvimos falar dos 2.5 ou 3.5% a mais. Ninguém diz que quem ganhe 150.000 Euros por ano, "devolve" ao Estado metade do que ganha. Não deduz um tostão. Como provavelmente já vive numa casa melhor deve ter uma continha de IMI de fazer chorar as pedras. Mas depois fala-se no património, especialmente o imobiliário, como se por acaso ele fosse isento de impostos.

Notem bem que os próprios media se referem aos muito ricos. Para eles um rico deve ser logo alguém que ganha 60.000. Provavelmente metade do que ganha um director dum canal de notícias por cabo.

Os verdadeiros ricos riem até doer a barriga com as intenções quase pueris desta corja de palermas que vai dos políticos aos jornalistas.

E se hoje temos uma classe política perfeitamente miserável, em muito se deve ao facto de a classe jornalística, ela também consideravelmente miserável, promover até à exaustão os "meninos" da sua simpatia. O caso de Sócrates é dos mais gritantes e teve as consequências que nós sabemos.

Não consigo quase ver noticiários, programas de comentário ou debates estéreis na TV. A náusea é demais.
Os órgão de informação de "massas" passaram a ser intoxicadores, manipuladores e completamente isentos de decência. Estamos a descer para o abismo Fox News. E estamos a descer a uma velocidade estonteante.