As pequenas coisas que nos fazem dizer... hum...

"A maioria dos portugueses quer um outro governo". Não se cansam de apregoar Seguro e os outros senhores ainda mais à esquerda.

Tinha sido um alívio a saída de Gaspar, como se por acaso a política implementada fosse coisa da sua autoria integral.
Como é que ninguém percebeu que Gaspar teve de implementar a política imposta pela Troyka da melhor forma que sabia? Então quando os relatórios ou sugestões da Troyka aparecem isso não deu pistas a ninguém?

A margem de manobra de Gaspar era muito reduzida. Encurtada sensivelmente por opções políticas e por questões constitucionais. Que é exactamente o que vai acontecer com o próximo e com o próximo etc etc.

A diferença será talvez a competência e o saber de Gaspar para fazer face às restrições. A forma de fazer contas não se resume ao que muitos acham - um Excel.

Esta ideia estúpida de que um técnico é uma coisa que se pode substituir por outro qualquer ou por um afolha de cálculo revela bem a ignorância nestas matérias da maior parte dos comentadores.

Mas esperava que as pessoas estivessem aliviadas e contentes por poderem mudar de rumo. Ter um PS no Governo cheio de "sensibilidade" e a fomentar o "crescimento e o emprego".

Não. Nada disso.
Vejo muito boa gente preocupada pelo rombo que Portas abriu. Vejo muita gente preocupada com a possibilidade de ter Seguro (a vacuidade suprema e a incompetência gritante) a tomar conta de um país que mal se está a levantar do fosso onde os seus companheiros o meteram.
Mais que preocupação já vi pânico. Como se o mundo fosse acabar amanhã.
Os mercados detestaram a notícia, as pessoas detestam a notícia.
Afinal onde estão as "maiorias" dos portugueses de que falam Seguro, Arménio, Jerónimo e toda a esquerdalhada anarco psicopata que se manifesta sem cessar? Onde estão elas?

A traição


Confesso que de todos os cenários possíveis o último que eu esperava é que o paladino da responsabilidade e da honorabilidade fosse mais uma vez deitar tudo a perder.
E quando digo "tudo a perder"não falo de posição partidária. Falo da situação do país.

O nosso país está em situação de emergência. Sem tirar nem por. Foi como se uma guerra tivesse devastado economicamente o país e coubesse ao governo que entra a dura tarefa de nos ajudar a sobreviver até ao dia em que as coisas melhorem.

Não é uma tarefa fácil, as coisas não vão ficar direitas em 2 meses e sobretudo é preciso um enorme espírito de sacrifício e abnegação.

Dos discursos dos políticos envolvidos era óbvio que Passos Coelho tinha esse sentimento. Era também isso que Paulo Portas deixava transparecer no seu discurso.
Fiquei contente quando os dois partidos juntos conseguiram aquilo que seria fundamental para levar a cabo a tarefa - uma maioria parlamentar.

Seria impensável ter o partido vencedor a fazer acordos com o PS. O PS responsável pela devastação económica nos últimos 6 anos. O partido de todas as jogadas sujas e incompetentes.

Sempre pensei que as concessões do CDS em política fiscal eram determinadas pela convicção de que era preciso fazer as omoletes com os ovos que se tinham. Numa altura em que é preciso tomar decisões duríssimas não podemos actuar como se tudo fosse normal. Não o era.
O CDS tinha de abrir mão de algumas das suas linhas programáticas a bem da recuperação do país. O mesmo fazia o PSD. Tal como o CDS sabia que apesar de ser contra o aumento de receita do Estado por via fiscal, não havia outra forma de rapidamente balancear o orçamento.

Qualquer dos dois partidos teria de se despir de algumas das suas convicções para salvar todo um povo atirado para a indigência súbita por causa de um furacão económico provocado por incompetentes e ladrões.

Não achei bem que durante estes dois anos Portas aparecesse em alturas chave a tentar distanciar-se das medidas do Governo. Ou se é homem e se assume na plenitude a razão das escolhas ou então não se é mais que um jogador que tenta ganhar em todas as frentes. E isso é a característica que os políticos apresentam que mais enoja os eleitores.
Num jogo tão complexo e com tantas hipóteses de derrota é crucial a coesão.

Estes episódios de Portas alimentaram especulações por toda a imprensa desejosa de encontrar clivagens no executivo. Deliciavam-se a cada novo disparate de Portas.

O que está em causa não é uma mera questão partidária ou de ambição pessoal. O que está em causa é um país de 10 milhões de habitantes que por uma vez na vida deseja ter políticos à altura das circunstãncias.

E se até aqui Portas foi conseguindo fazer o papel, subitamente descobre que tem um cinto de explosivos do qual saem uns fios para um botão na mão. E carrega no botão para ver o que dá?
E faço este paralelo porque a primeira vítima deste gesto é ele e o CDS. É verdadeiramente um gesto suicida. Do ponto de vista político Portas a partir de agora alguém em quem não se pode confiar. Um intocável.

O que torna isto espantoso é que depois de ceder (e bem) em questões de princípio ideológico, Portas atire a toalha por aquilo que parecem ser questões comezinhas e até de uma certa baixeza.
Se é pela discordância com o substituto de Gaspar ou se é por achar que foi desrespeitado, é absolutamente incrível que Portas lance o país numa espiral de instabilidade que tem proporções enormes.
Hoje a bolsa afunda-se e os juros da dívida a 10 anos sobem a níveis não vistos desde 2012.

As consequências do gesto nem se conseguem determinar. Portas num ápice deitou a perder os penosos ganhos de credibilidade deste Governo.

É uma traição ao país. É uma traição a quem votou nele como contrabalanço no poder. É uma traição a milhões de portugueses que anseiam por estabilidade e sentido de Estado dos nossos governantes.

Eu votei CDS pela primeira vez na minha já razoavelmente longa vida. Porque não tinha grande confiança em Passos e porque não queria um partido sozinho no exercício do poder.
Achava que a estatura e a seriedade do CDS seria bom contraponto aos desvarios de um PSD inquinado de barões, baronetes e espertalhocos.

Rapidamente percebi que Passos assumia a tarefa como um imperativo. Que encarava o seu mandato como algo que tinha de ser exercido para salvar o país. As eleições seguintes não eram o objectivo.
Portas desiludiu-me. Em grande escala.
Portas perdeu toda a credibilidade para mim. E não sou só eu a pensar assim.
O que me leva a pensar que a sua proverbial inteligência se terá convertido em burrice total ao não antecipar as consequências do seu gesto. Quer do ponto de vista do país quer do ponto de vista do partido.
Estou curioso de ver o resultado duma próxima sondagem relativamente ao CDS e ao seu líder. Ninguém lhe perdoará. E de facto com um líder que se comporta assim, o CDS, apesar de um conteúdo programático francamente apelativo, afundar-se-à a níveis de 3 ou 4%.
E desta vez merece-o.
Um bom substituto para Portas?
Nuno Melo.
Tem carisma, tem juventude, tem inteligência. Esperemos que tenha o carácter suficiente para não atirar o país ao buraco por questões que nesta conjuntura podem ser consideradas "merdices".
E dá 10 a zero a qualquer putativo candidato a líder do CDS

Pequenos detalhes

Se houve alguma coisa de que nunca duvidei em Passos foi do seu espírito de missão. Havia qualquer coisa que me dizia que alguém que aceite ser primeiro ministro no estado em que o país se encontrava não pode estar a fazê-lo por mera vaidade ou ambição. Se fosse era louco e Passos não tem nada de louco.

Hoje, a seguir à notícia da demissão de Portas as televisões entraram em DEFCON 1.

Chamaram-se todos os comentadores para as televisões. Pudemos ver os ranhosos do costume. Adão e Silva, o careca imbecil, súcias, comunas e trotzkistas. Tudo.

Todos eles teciam considerações sobre a pouca informação disponível. Mas todos concordaram que o Governo tinha de se demitir e Cavaco tinha de convocar eleições antecipadas. Capucho, deliciado, até avançava com a data.

E por volta das 20:10 Passos falou. E duma penada todas as erecções de desvaneceram.

Mais uma vez eu sabia que Passos ia fazer aquilo. Eu sabia que ele não deixa cair o país nas mãos de Seguro. Aquele cuja fotografia está na enciclopédia a ilustrar a palavra "vácuo".
Foi muito peremptório na sua determinação em não deixar o país no pântano. Logo agora que o ciclo começa a dar sinais de inversão.
As falências diminuiram, a venda de carros aumentou, o desemprego desceu. O ciclo parece ter chegado ao ponto de inversão.

Após a sua curta declaração os painéis de comentadores estavam com cara de ter sido sodomizados a frio. Estupor e indignação. Adão e Silva afirmava que Passos estava louco e desligado da realidade, Marques Lopes proferia as inutilidades do costume.
Mais uma vez, não houve um único que conseguisse prever o que se ia passar. Todos expressaram o seu wishful thinking o que não deixa de ser mais uma prova de como os media estão infestados de lixo súcia e bloquista.

Jerónimo afirmava que Cavaco tinha de demitir o governo. Porquê? Não foi Sócrates nomeado 1º ministro de um governo que nem apoio parlamentar tinha? E não viveu 2 anos nessa podridão?
Não será plausível pensar que mesmo com o CDS fora da coligação seja possível estabelecer com ele acordos parlamentares?

Não deixa de ser curioso como todos os que estão de fora querem impor a sua visão a Passos Coelho. Baseados na sua sensibilidade, fézada ou crença de que para uma determinada situação há apenas uma resposta - a deles.

Pois Passos lixou-os em toda a linha. Fez o que nenhum deles esperava. Deixou Seguro a espumar da boca, Adão a proferir com raiva as suas habituais idiotices de cientista político.
Ainda terão palco para mais 2 ou 3 dias. Depois andarão a encolher os ombros e a dizer uns aos outros: "já viste? viste isto? como é possível?".

Aguentem-se rapazes. Gente com firmeza de convicções como Passos há poucos. Para quem o critica por ser impreparado e hesitante olhem bem para os túbaros do homem.
Não há memória de alguém assim desde há muitos anos. Temos sido regidos por um alinhamento de cobardes, ladrões e estrategas de vão de escada.

E quanto a Portas... ai Portas. Com o gesto de hoje muitos votantes no CDS não lhe perdoam a falta de sentido de estado de que sempre se arrogou. Por em causa um governo maioritário por uma birra com um nome ou por uma questão de "desrespeito" pela sua opinião é uma das maiores baixezas que alguma vez fez.

Ou se assume  responsabilidade porque primeiro está o país ou então está melhor fora. Mas tentar dar o poder de mão beijada ao PS que ainda há 2 anos nos arruinou com a esperança de salvar alguma percentagem para poder voltar a ser governo é no mínimo absolutamente nojento.

O governo não se aguenta sem o CDS mas o CDS sem o governo não é nada. É uma relação de simbiose em que os dois precisam do outro para sobreviver.
Vai sendo altura que Portas se capacite que com a sua dimensão não pode passar a vida a chantagear um parceiro de coligação.
Uma coisa destas varre o CDS para o grupo dos indesejáveis. Para o grupo daqueles em que não se pode mesmo confiar.

Portas não desilude

Inacreditável como se pode por em causa dois anos de sacrifícios de todo um povo por uma questão de nomes.

A discordância na escolha da sucessora de Gaspar faz com que o líder do partido da coligação bata com a porta.

A irresponsabilidade é total. O tacticismo político vergonhoso. Percebe-se bem quem põe as suas ambições acima dos problemas do país.

A saída de Gaspar é um golpe na credibilidade do país. Veja-se o que diz a imprensa estrangeira da demissão.
Num momento em que era preciso cerrar fileiras e partir para um segundo ciclo de governação de forma coesa e empenhada, Portas demite-se. Inqualificável.

O abrandamento

Tenho receio do que possa acontecer com a saída de Gaspar.

Não porque não acredite na capacidade da sua sucessora, mas porque acho que o atirar da toalha de Gaspar é o sintoma de um problema muito português - o não mudar nada.

Quer queiramos quer não, os governos têm a péssima tendência de ceder mesmo naquilo que é crítico. Assim o foram fazendo desde o 25 de Abril com os resultados inacreditáveis que temos hoje.

Foi Cavaco a encher o país de modernidade com dinheiro dado, foi Guterres a seguir pra não se ficar atrás. E foi Sócrates com o seu projecto de poder tentacular.

Nada do que era realmente importante se fez. Nunca se pensou este país a 10 anos sequer.
Perante a anunciada obsolescência dos nossos sectores económicos o país respondeu com uma transformação num país de serviços. Sem qualquer valor acrescentado. Virado economicamente sobre si próprio deixou que todos os deficits possíveis e imaginários crescessem a níveis incomportáveis.

A cada pressão, os governos vão cedendo a todas as corporações. A firmeza de convicções e a noção da própria sobrevivência em causa nunca foi uma barreira para deixar aos seguintes a resolução do problema.

A Gaspar caiu-lhe nas mãos um país de rastos. A semanas de não poder pagara salários à função pública e com uma imagem internacional digna de uma república das bananas.
Incumpridor, gastador e ínutil. Portugal estava no ponto mais baixo do seu prestígio desde o período revolucionário de triste memória.

Fazendo as contas era evidente que qualquer ministro das Finanças tinha de ser impopular. Calhou a Gaspar. Mas não seriam todos a ter a firmeza de implementar essas medidas. Desde os primeiros dias de austeridade que Gaspar ficou na mira de todos. Da oposição e do próprio partido.

As personagens mais insuspeitas andaram meses a desancar Gaspar. Até gente que desistiu em situações muito melhores e que devia ter noção do que era a tarefa que Gaspar tinha em mãos. Bagão Félix. Ferreira Leite. Os mesmos que hoje falam de redução da despesa e que quando estiveram no lugar não a reduziram em nada. Aplicaram exactamente a mesma receita - impostos.

Neste dois anos muita coisa aconteceu nos gastos do Estado. A imprensa mal fala disso ou tem meras notas de rodapé.
Pouparam-se dezenas de milhões de Euros anualmente trazendo num país com o PIB em retracção o deficit para valores muito diferentes daqueles que foram em 2010 e anteriores.

Há quem diga que as reformas podiam ter ido mais longe. É verdade. Mas não me parece que o sentimento na oposição e no PSD seja o de que a ministra as consiga fazer.
Duvido muito que tenha o apoio de quem quer que seja para continuar a obra de Gaspar. Espera-se dela o que se esperava da sucessora de Maria de Lurdes Rodrigues - uma "festa".

Esperemos que ela tenha a convicção de Gaspar e pelo menos uma fracção da sua competência.

Falaremos com saudade de Gaspar. A própria imprensa o fará um dia destes.

Obrigado por ter dado alguma esperança de que o país se podia tornar num lugar salubre.
Obrigado Vitor Gaspar.