Um homem sério

Ainda ontem escrevia um post chamado "Um pulha". Depois de ler o que Mário Soares tem dito por estes dias é difícil não ceder à tentação de insultar umas das figuras mais perniciosas da nossa democracia.

Mas é curioso como o destino nos equilibra as coisas.
Hoje fala-se de Eanes no Público.

E de facto temos de nos lembrar que o pulha sucedeu ao que terá sido o último Presidente da república digno desse nome.

O General Ramalho Eanes foi muito mais importante para a nossa democracia do que lhe é reconhecido. Não podemos esquecer que ele, juntamente com outros oficiais moderados terminou com a loucura marxista que se fazia sentir em 75.
As veleidades de assalto ao poder do PCP acabaram no dia em que homens corajosos que tinham jurado defender a pátria se interpuseram entre ele  e um bando de cobardes.

Sermos hoje um regime democrático deve-se a esses homens.

Não me surpreende que consigamos encontrar na instituição militar homens corajosos e dignos. É muito mais provável encontrá-los do que no meio de desertores ou refractários.

Foram homens que escolheram defender o país. Não o regime ou o governo. Juraram defender a pátria. E estes fizeram-no.

Mas Eanes não se ficou por ser um militar. Foi uma força agregadora do país, foi um presidente que vendeu bens pessoais para pagar despesas da presidência. Diz hoje que isso não é nada, porque não precisava do apartamento da Caparica e não passou fome.
Foi o homem que ganhou uma causa contra o Estado relativa a remunerações não pagas e depois, olimpicamente e de luva branca disse "fiquem com o dinheiro, porque eu não preciso dele".
Foi ele que fez um doutoramento numa Universidade Espanhola depois de ter deixado de ser presidente.
É ele que em momentos de maior crise ou maior desnorte tem sempre uma palavra ponderada e apaziguadora. É um militar. Ao contrário do que se pensa os militares são os que mais detestam a guerra e o sangue. São civis como Soares e Alegre que apelam à revolução. Não é sangue deles que está em jogo. É o dos outros...

O contraste entre este homem e os que se seguiram na Presidência é tão grande que nos leva a pensar se não seria melhor pedir-lhe de joelhos que voltasse.

Desde o nababo Soares que se encheu com a "coisa pública" até ao alcoolatra Sampaio à múmia enfaixada que é Cavaco nunca mais tivemos um homem de estatura. O último foi Eanes.

Vale mais uma palavra ou um olhar de Eanes do que 20.000 discursos e declarações de todos os outros.

A história irá fazer-lhe justiça. Um homem sério que saiu mais pobre do que entrou. Um homem que conseguiu segurar o país numa altura difícil de furor pós revolucionário. Um Presidente a sério.