Uma relação difícil com a verdade

A relação entre Paulo Campos e a verdade é a mesma que existe entre duas linhas paralelas.
As duas existem, têm um certo afastamento entre elas e nunca se encontram.

Toda a actuação deste indivíduo é do mais sombrio que se pode imaginar.

O 1º episódio de que me lembro foi aquele em que Paulo Campos, convidado a integrar a Federação Distrital de Coimbra do PS teria convidado Joana Amaral Dias (para aqueles que não estão a ver bem quem ela é, é a senhora do Bloco que diz "Lesboa" e que andou muito em voga pelas televisões durante o reinado de Sócrates) para a posição.
Mais tarde ecoou na imprensa que o convite tinha sido feito para ela ocupar um lugar de deputada pelo PS ou um lugar no Instituto da Droga e Toxicodependência. Do Jornal de Notícias de 29-7-2009
(..) Amigo de Joana Amaral Dias há vários anos, Paulo Campos foi convidado pelo presidente da Federação Distrital de Coimbra do PS, Vítor Baptista, a ocupar o terceiro lugar na lista socialista deste distrito. Mas decidiu recusar esse convite e telefonou a Joana Amaral Dias para saber se ela estaria interessada no lugar.
A bloquista Joana Amaral Dias, que se havia aproximado do PS quando aceitou ser mandatária da Juventude da última candidatura presidencial de Mário Soares, acabou por declinar o convite de Paulo Campos e, na sexta-feira passada, comunicou essa decisão ao dirigente máximo do Bloco de Esquerda, Franscisco Louçã.
Joana Amaral Dias também terá dito a Louçã que, além do segundo lugar na lista de Coimbra, ter-lhe-ia sido oferecido um cargo de dirigente no Instituto da Droga e da Toxicodependência. Segundo a mesma fonte do Bloco, Joana Amaral Dias nunca referiu a Louçã quem lhe tinha oferecido os lugares de deputada e no IDT.
No sábado passado, Louçã trouxe a história a público de forma muito cáustica. Acusou de tráfico de influências José Sócrates, secretário-geral do PS e primeiro-ministro, por ter sido oferecido um lugar de Estado à militante bloquista, em troca de apoio para o combate das legislativas. “Isso mostra-nos o desespero em que está o PS”, comentou Louçã.
Já como Secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos fazia estes biscates. Verdade? Mentira? Com a podridão da política e em particular de personagens como Paulo Campos que corporiza tudo o que é sujo na política creio bem que isto pode ser o menor mal que ele alguma vez fez.

Mas a coisa não se ficou por aí. Paulo Campos renegociou algumas PPP's rodoviárias. E essa renegociação onerou o Estado de forma considerável. Ainda me lembro de Marques Mendes na TVI com uma simples conta a demonstrar o agravamento desses valores em mais ou menos mil milhões de Euros. Coisa que Paulo Campos nega, obviamente.

Mas ele foi ainda mais longe. Bastante mais longe.

Numa comissão parlamentar usou de forma deliberadamente enganadora o nome da KPMG para justificar com um "estudo" as opções tomadas.

O aborrecido foi que a KPMG o veio desmentir de forma algo "zangada". Do site da TSF em 27 de Outubro de 2011:
Na carta que enviou ao presidente da Comissão de Economia e Obras Públicas, o administrador da KPMG acusa ainda Paulo Campos de ter atribuído à empresa relatórios que não são dela. Paulo Santos, administrador da consultora financeira KPMG, enviou uma carta ao presidente da Comissão de Economia e Obras Públicas, onde Paulo Campos foi ouvido esta semana e respondeu a questões sobre a renegociação dos contratos com as ex-SCUT, com a maioria de direita a acusar o Governo anterior de ter lesado o Estado com esse negócio. Na carta enviada à comissão, a KPMG considera que «existem indícios de utilização indevida da imagem» da empresa, quando Paulo Campos apresentou um «conjunto de gráficos e outros elementos de análise» com uma capa com o logótipo da consultora.
Na mesma carta pode ler-se que, «nenhum dos gráficos ou dos relatórios é da autoria» da mesma.
Paulo Santos, o administrador, refere ainda que foram atribuídos à KPMG um «conjunto de factos e conclusões que não correspondem a nenhum dos relatórios emitidos pela firma a pedido das Estradas de Portugal».
O documento acrescenta ainda que a KPMG presta consultoria financeira às Estradas de Portugal «desde 2001», tempo de António Guterres. Isto porque, na comissão, Paulo Campos afirmou que tinha sido António Mexia, enquanto ministro das Obras Públicas de Santana Lopes, a assinar o contrato com a consultora.
Se isto não é de uma má fé gritante não sei o que será. Acredito que a KPMG só não o tenha accionado judicialmente porque como todas as empresas que vivem da "mama" do Estado, esse seria um rumo que a colocaria fora dessa lucrativa área de negócio de forma mais ou menos permanente.

Mais recentemente soube-se de um episódio de sonegação de informação ao Tribunal de Contas. Paulo Campos afirmava que isso não era de todo verdade e que o INIR é que reportava essa informação ao TC e que tudo tinha sido incluído.
Mais, foi adiantando logo que a tutela dessa área era do Ministro das Obras Públicas e do Ministro das Finanças, começando logo a aliviar alguma responsabilidade que lhe venha a cair em cima.

Só que o INIR emitiu um comunicado, segundo uma notícia do I Online, em que contradiz Paulo Campos nos seguintes termos:
Regulador do sector rodoviário diz que recebeu orientações do gabinete do ex-secretário de Estado para praticar “significativas omissões de informação” ao TC
A Secretaria de Estado das Obras Públicas dos governos de Sócrates, então liderada por Paulo Campos, alterou e retirou factos às respostas que o Instituto de Infra-Estruturas Rodoviárias (InIR) preparou para enviar ao Tribunal de Contas, no âmbito da auditoria que fez à gestão e regulação por parte do InIR das parcerias público-privadas. Alterações que provocaram “significativas omissões” ao TC.
A denúncia é feita pelo próprio InIR num documento entregue ao Tribunal de Contas e contraria as declarações do ex-secretário de Estado Paulo Campos, dadas na última sexta-feira em entrevista ao “Sol”, onde refere que “é totalmente falso” que “tenha dado qualquer orientação ao InIR”. Versão oposta tem Alberto Moreno, presidente do conselho directivo do InIR.
Em resposta enviada ao Tribunal de Contas no final de Outubro passado, elaborada “com o propósito de V. Exas. estarem em condições de cumprir os objectivos da auditoria que se propuseram”, o InIR envia as versões iniciais das respostas que ia enviar àquele tribunal, cuja “simples comparação” com as respostas efectivamente entregues – as que passaram pela equipa de Paulo Campos – “traduzem a nosso ver significativas omissões de informação com significativos impactes na credibilidade deste Instituto”, assume o presidente do InIR. Em justificação da sua entidade, Alberto Moreno lembra “que tal procedimento [envio prévio das respostas à anterior Secretaria de Estado das Obras Públicas] era requerido pela então tutela.” Já sobre a razão de esta admissão só ter surgido em Outubro, a carta entregue ao TC refere que “a presente resposta” é “substantiva e resultante da própria alteração significativa da envolvente político-institucional do Estado Concedente no relacionamento com o Regulador”.

Assim, explica ainda, “a própria natureza dos procedimentos agora revelados e a informação transcrita nestes documentos confirmam substantivas divergências por força de orientações a que o InIR estava sujeito e atestam o quanto desproporcionado será designar o Instituto como independente”.

A carta do InIR ao Tribunal de Contas, que também surge publicada num anexo da auditoria ao modelo de gestão, financiamento e regulação do sector rodoviário divulgada em Maio pelo TC, salienta ainda alguns dos “factos relevantes omitidos por força das orientações da tutela”, citando mesmo emails do gabinete do então secretário de Estado das Obras Públicas para o InIR a solicitar “que previamente ao envio das respostas para o TC seja dado conhecimento prévio a este gabinete” ou “que logo que possível faça chegar o ‘draft’ de que falámos”, referindo-se neste caso ao contraditório a entregar pelo InIR. Um outro email do gabinete de Paulo Campos vai mais longe e avança com respostas alternativas: “A resposta deverá ser: ‘O InIR não dispõe de dados para responder a esta questão.’” Ou ordens: “Devem ser retiradas as referências à forma como a EP envia os contratos e ao prazo em que o InIR tem verificado os mesmos.”
Não deixa de ser curioso que a alusão a esta carta não apareça nem no Público nem no Expresso.
Creio que uma declaração destas tem o interesse jornalístico suficiente para estar em jornais de referência.
Afinal revela bem a teia de mentiras em que este indivíduo está envolvido e até que ponto é enorme a sua responsabilidade em todo este processo.
Mesmo que esta "limpeza" prévia dos relatórios não seja um "crime", indicia claramente a forma como a informação ao TC era controlada, e a forma como Paulo Campos pretende afastar de si as responsabilidades neste caso.
Com este tipo de actuação e com o apontar para dois ministros qualquer responsabilidade no caso, não é muito difícil supor que este tipo actuação pudesse ser determinado por ordens superiores.
Paulo Campos poderia ser apenas um diligente executante. E de certeza que não se fez rogado a desempenhar esse papel.

No que diz respeito a Paulo Campos não haverá muito a acrescentar. O episódio da "empresa" que teve com um sócio só para organizar um evento até parece uma coisa menor comparada com toda esta série de tropelias em que anda envolvido nos últimos anos.

Mentiroso é o mínimo que Paulo Campos é. Daí a ser um criminoso que devia ser julgado vai só um pequeno passo. Aguardamos para ver o que o MP faz com este pedaço de lixo.

Mas nestes tipos o mais fantástico são os seus currículos

1996-2005 Administrador de diversas empresas do Grupo Águas de Portugal nomeadamente:
2001-2005 Águas do Sado, S.A. - Presidente do Conselho de Administração
2000-2005 AdC - Águas de Cascais, S.A.- Presidente do Conselho de Administração
1996-2002 AdP-Águas de Portugal, SGPS, S.A. - Administrador responsável, no Grupo, pela área de estratégia e de desenvolvimento empresarial, pela área financeira, pela área de actividades de suporte e pela Unidade de Negócio de Distribuição de Água.
2001-2002 AdP - Águas de Portugal Serviços Ambientais, S.A. - Administrador e Presidente da Comissão Executiva;
Luságua – Gestão de Águas, S.A. - Presidente do Conselho de Administração;
AdP - Águas de Portugal Internacional – Serviços Ambientais, S.A. - Administrador;
NetAqua – Tecnologias de Informação, S.A. - Administrador;
2000-2002 Simlis - Saneamento Integrado dos Municípios do Lis, S.A. - Presidente do Conselho de Administração;
IPE – Comunicações e Serviços, S.A. - Administrador;
1997-2002 Aquapor-Serviços, S.A. - Presidente do Conselho de Administração
Administrador (1997/2001);

Simria - Saneamento Integrado dos Municípios da Ria, S.A. - Presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva
1994-1996 IPE Capital-Sociedade de Capital de Risco, S.A. - Gestor de Projectos - Coordenador área Infraestruturas/Ambiente, Gestor de Marketing
1991-1993 UNICAR-Gestão de Participações e Concessões, Lda. - Director e Gerente
1989-1991 IPE-Investimentos e Participações Empresariais, S.A. - Técnico

Reparem que desde 1997 salta de Gestor de Projectos para Administrador. Ora façam lá um esforço de memória para se lembrarem de quem subiu ao poder em 28 de Outubro de 1995. Eu dou uma ajuda... Era um senhor muito bonzinho que gostava muito de consensos que saiu zangado com a podridão que o rodeava e agora continua muito bonzinho mas menos rodeado de podridão. Está na ONU a fazer o que sabe fazer melhor - a ser bonzinho... com os refugiados.

Ou seja, este fulano anda desde 1997 a viver à conta de Estado, em lugares executivos de topo com uma licenciatura em Economia.
Como se vê pelo fantástico curriculo, parece estar habilitado para exercer cargos do mais alto gabarito e lidar com milhares de milhões de Euros do contribuinte.
Vamos a apostas quanto ao lugar que vai ocupar a seguir? No sector privado, entenda-se...

O tipo tem de ser muito bom. Administrador aos 32 anos, idade em que a maior parte das pessoas com formação académica similar ainda nem alcançou nenhuma posição de relevo. A maior parte passa por uma vida inteira de trabalho sem o conseguir. Esta génio desatou a ser administrador em empresas públicas e nunca mais parou. O sector da água é onde parece estar mais à vontade.
Mas um tipo que entra como técnico para uma instituição com 24 anos, chega a administrador nessa mesma entidade em 2000. É obra hein?

Querem divertir-se a ler tudo o que envolve este personagem? Leiam aqui no Tretas.org

Uma teoria do século 16, aceite durante muitos anos como um método de investigação criminal, associava certas feições do rosto ao comportamento criminoso.
Hoje isto parece-nos ridículo mas a verdade é que muitos terão sido condenados baseados nesses pressupostos "teóricos". Afinal a formulação dessa teoria foi feita precisamente analisando criminosos executados.

O facto é que a 1ª impressão conta muitíssimo e determina muitas vezes a forma como aceitamos, ou não, uma pessoa. Por vezes nem lhe damos a oportunidade de se dar a conhecer melhor.
Com Paulo Campos a 1ª sensação que tive quando o vi e quando o ouvi falar foi: "tens uma pinta de vígaro como não há igual".
Mal eu sabia que todos estes episódios que se passaram desde essa 1ª impressão, só iriam reforçar a minha convicção.
O homem não só tem um aspecto "sombrio" como parece ser um vigarista de alto quilate. E como todos os vigaristas, um mentiroso compulsivo.
Curioso como alguém pode formar um governo e rodear-se de gente deste calibre. Mais curioso ainda é que só gente deste calibre pertence ao seu núcleo duro de apoiantes.
É fascinante.